A censura nos gibis: 1954-2011

A CCA, Comics Code Autorithy (Autoridade do Código dos Gibis) foi um órgão regulatório da América do Norte, parte da Comics Magazine Association of America (Associação de Gibis dos Estados Unidos). Sua criação foi feita pela própria indústria de gibis em 1954, após o psiquiatra Dr. Frederick Wertham escrever o livro “Sedução do Inocente”, que argumentou que os gibis tinham efeitos deletérios nas crianças.

Ao passo que o Frederick tinha suas qualidades enquanto pessoa, seu estudo usava quase que somente evidência anedótica e sofria do problema da correlação não implicar em causalidade; além disso, sua análise dos números crescentes de jovens delinquentes completamente ignorou o fato de que estes números coincidiam perfeitamente com a população crescente nos EUA na era “Baby Boom”.[1] Ainda assim, o Wertham causou um rebuliço imenso, levando esse problema alegado, de crianças lerem gibis lhes causar efeitos, a uma comissão do Senado dos EUA.

A CCA foi criada então pelos publicadores de gibis para suprimir a fúria dos pais sobre o que suas crianças estavam lendo em gibis, e cortar por terra quaisquer tentativas de censura governamental. Apesar de que a aprovação da CCA não era inicialmente requerida para gibis na época, certas lojas não aceitavam gibis sem a estampa de aprovação da CCA, para não terem de encarar mães raivosas. Devido a isto, revistas como Tales from the Crypt (Contos da Cripta) rapidamente saíram do comércio.

Efeitos na arte

Haunted4April

Um gibi que dançou por ter MORTOS VIVOS. As crianças poderiam se matar depois de lerem…

Muitas das regras da CCA eram simplesmente ridículas, forçando os gibis a seguirem as normas socialmente conservadoras e politicamente corretas da década de 1950, e arrancando dos gibis praticamente toda sua profundidade no processo. Histórias de horror e personagens sobrenaturais como zumbis, ghouls e lobisomens foram completamente banidos, assim bomo a mera menção da palavra “zumbi”.[2] Os gibis passaram a mostrar bem e mal como coisas totalmente claras, sem áreas cinzentas, e a polícia e outras figuras de autoridade apenas podiam ser mostradas como moralmente corretas. Os diálogos tornaram-se totalmente limpos, e mostras de drogas, sedução, estupro, “violência excessiva” e “perversões sexuais” (o termo-código da década de 1950 para homossexualismo e BDSM, seja explicitamente ou implicitamente)[3] foram expressamente proibidas.

Críticas a qualquer religião ou grupo racial foram banidas, uma regra que foi usada para censurar histórias que tinham um posicionamento favorável a direitos civis![4] A “santidade do casamento” deveria ser defendida: isto significou que histórias românticas deveriam terminar ou os dois personagens se casando, que personagens-criança deveriam respeitas seus pais, e que o divórcio deveria ser apresentado como A Coisa Ruim. Um código de vestimentas foi imposto; as mulheres deveriam ser desenhadas “realisticamente, sem exagero de quaisquer qualidades físicas” (seios).

Judgment Day - 1953

Dia do Jugamento: uma história que quase dançou por o protagonista ser NEGRO. As crianças poderiam virar negros depois de lerem…

A CCA acabou indo muito além do quê o Wertham propôs: seu objetivo declarado em “Sedução do Inocente” foi estritamente tornar ilegal a venda de gibis para menores de 15 anos, não censurar os gibis para torná-los seguros para a leitura por crianças!

Ao passo que horror, crime e gibis similares foram exterminados do dia pra noite, a implementação do Comics Code é com frequência creditado como o salvamento dos gibis de super-herois da extinção: após o fim da 2ª Guerra Mundial, o suprimento pronto de “lixos nazistas facilmente odiáveis” cessou, e os super-herois tiveram que voltar a lutar contra crime de rua, o que se provou substancialmente menos interessantes do quê histórias de lutar para defender a liberdade e as tortas de maçã da tirania dos fascistas. Muitas tentativas de “atualizar” estas histórias para os novos tempos, como a auto-explicativa “Capitão América: Esmagador de Comunista”,[5] provaram-se embaraçosas. Na época da publicação de “Sedução do Inocente”, em 1954, as histórias controversas e sinistras de horror, crime, Velho Oeste e romance estavam comendo seus rivais super-herois no café da manhã. Claro, essa controvérsia acabou tornando-se sua ruína, deixando as publicadoras de gibis de super-herois, com suas histórias diretas de bem x mal e a justiça triunfando sobre a vilania, como os únicos a catarem os cacos da indústria destruída.

Extinção

Com o passar das décadas, decisões de publicadores grande de não se preocuparem mais com aprovação da CCA, junto do crescimento das “comix clandestinas” independentes na década de 1970, e a mudança da distribuição em bancas de jornais para lojas de quadrinhos, fizeram a CCA se tornar cada vez mais irrelevante.[6]

Por 2011, nenhuma publicadora de grande nome realmente aderia à CCA:

  • A Marvel moveu-se para um sistema interno de avaliações e etiquetas de aviso nas capas dos gibis com conteúdo “adulto”, próximo à virada do século;
  • A DC ainda submetia alguns livros de tempos em tempos, mas eventualmente passou a aplicar uma aproximação parecida com a da Marvel para toda a linha, em janeiro de 2011;
  • A Archie Comics nessa época raramente submetia gibis para aprovação (e ocasionalmente usava o selo sem submeter para aprovação). No dia seguinte à DC, a Archie também saiu da CCA, e assim, o órgão acabou.

Curiosidade: Espectro

The Spectre - wax melting

The Spectre: badass.

O relançamento, na década de 1970, do gibi do Espectro, sobre um policial que é morto por gângsters apenas para retornar como um espírito vingativo em uma missão de Deus, deu-se a uma engenhosa burla das regras contra violência. Já que o Código apenas proibia violência gráfica contra personagens humanos, a equipe da editora decidiu que, já que o Espectro tinha poderes de curvar a realidade, ele os usaria para que as pessoas que ele matasse não fossem tecnicamente humanas quando morressem. Isto permitiu-os evadir a restrição com o Espectro transformando um bandido em um bloco de madeira antes de serrá-lo em pedaços, e transformando outros em cera sólida antes de derretê-os – e deixando claro que as vítimas estavam completamente conscientes e sofrendo conforme morriam. Tudo isto passou pela inspeção da CCA porquê nada estava tecnicamente contra o Código, mesmo sendo frequentemente mais gratuitamente violento que as mortes humanas das histórias originais.[7]

Referências

  1. Slate (Jeet Heer): “The Caped Crusader: Frederic Wertham and the campaign against comic books.” – 4 de abril de 2008.
  2. Isto levou a Marvel a usar outro termo (indistinguível) no lugar: “zuvembies“.
  3. Muitos ativistas anti-gibis, incluindo Wertham, viam tons gays na relação do Batman com o Robin, e temas de bondage na Mulher-Maravilha, e usaram isto como pontos para reclamar contra essa mídia.
  4. Como “Judgment Day” (1956), que quase foi banido pela CCA devido a sua grande revelação no fimM: o astronauta humano judando a sociedade alienígena segregada é negro. A EC Comics no fim conseguiu publicar a história sem censura, evergonhando a CCA até que fosse aceita.
  5. Golden Age Comics: “Captain America…Commie Smasher!!!” – 6 de abril de 2011.
  6. Sideroad: Origin Of The Comics Code Authority
  7. Cracked.com (Henrik Magnusson): “5 Times Censorship Just Made Everything Way Worse.” (#1. The Comics Code Authority’s Ban On Violence Led To The Most Gruesome Stories Ever.) – 7 de julho de 2016.
Licença Creative Commons Este post de Anders Bateva está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.
Baseado no trabalho disponível em Rational Wiki – Comics Code Authority.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

*