Assembleia de Ocupação do IF Juiz de Fora

No dia 1º de novembro, a página no Facebook do “Ocupa IFJF” convocou uma palestra + assembleia de ocupação do IF Sudeste MG – Campus Juiz de Fora. Os membros são contrários à PEC 241 (cortes de gastos por 20 anos) e à PL 6840/2013 (reforma do ensino médio).

A ideia, antes da convocação, era começar a ocupação no dia 1º, mas acabaram adiando para o dia 7. A reunião durou de 6:30PM até as 10:30PM (4 horas), e teve uma votação muito tumultuada.

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Imagem de convocação.

Palestra da Lorene

A convidada foi a professora Lorene Figueiredo de Oliveira, da UFF (não mais subsecretária de educação, como anunciado na imagem de chamado). Apresentou-se dizendo fazer parte do ANDES, e que já é conhecida em Juiz de Fora de quando era da rede estadual, e da rede municipal, panfletando. Professora desde 1985. Seu foco exclusivo foram os efeitos da PEC 241.

Ela aponta que em 2008 houve o colapso do projeto mundial iniciado em 1970. Começam muitas manifestações no mundo, por conta disto, como ocupações, “precários” em Portugal, Grécia, oriente médio, etc. Na época isso não nos impactou de imediato por conta do valor das commodities. O presidente Lula até brincou, falando que seria uma “marolinha”.

O que significa congelar gastos sociais do governo durante 20 anos, num país com desigualdade tão infame? Dilma vetou a auditoria da dívida pública/externa, prevista na Constituição. Pra quê esses pagamentos? Pra onde? Quanto? Não existe controle social da dívida desde 1931.

Em MG, a maioria das escolas não têm refeitório nem biblioteca. Algumas melhorias não têm esgoto, xerox, nem adaptações para deficientes. Ela disse disse também que um professor brasileiro, que leciona em universidade estrangeira, e que foi convocado para falar na Câmara dos Deputados pelo PT, disse que os países da OCDE gastam uns 25% com direitos sociais, mas com a PEC 241, o Brasil gastaria menos de 15%. Isso na 6ª ou 7ª maior economia do mundo!

Os juros da dívida aumentaram de 7% para quase 15%. Tem dinheiro em paraísos fiscais, tem dinheiro sonegado, tem grandes fortunas, tem isenção fiscal… Com isso não tem ninguém quer mexer, né?

Discussão que se seguiu

Nota: onde está sublinhado que “eu” falei, é para deixar claro que estou relatando minha própria fala, e ela deve ser considerada como esta cautela.

Terminada essa exposição de como o Brasil tem dinheiro e está cortando nos lugares errados com a PEC 241, o microfone foi passado para outras pessoas falarem. A princípio a ideia seria questionar o que foi dito sobre a PEC 241, e depois discutir se ocuparia-se ou não, e votar. Porém, a discussão não teve esse delineamento claro de etapas.

  • A primeira pessoa a falar, um rapaz, reclamou que aquilo não havia sido um debate, pois só um lado tinha sido colocado para debater, sem mediador. Então esse rapaz se sentiu sacaneado (“nós”, “a gente”) pelos organizadores, que chamou de “eles”. Suponho que, com “eles”, o rapaz se referia aos alunos do integrado (ensino médio + ensino técnico – manhã e tarde), que estavam se reunindo desde antes e marcaram essa reunião à noite para tentar abranger os alunos do modular (só ensino técnico – à noite). Ele disse que o neo-liberalismo dos países nórdicos tem que ser considerado, pois dá certo, e pode dar certo aqui também.
  • Um estudante de mecatrônica (faculdade) disse que a PEC é uma resposta à necessidade real de se cortarem gastos, mas que da
    forma atual propõe cortar no lugar errado, fora dos que ganham muito, como juízes e deputados. Mas as pessoas que votam a PEX não estão no IF Sudeste MG Juiz de Fora, mas sim em Brasília. Eles estão se lixando para o que fizermos ali.
  • A isto, eu, que já fui do integrado antes de ser do modular, respondi que há também a reforma do ensino médio! O ensino médio já é uma porcaria, e ainda arrumaram um jeito de piorar… Vários conceitos de independência, autonomia, responsabilidade, a serem desenvolvidos no ensino médio, constam no Plano Nacional de Educação, mas não se materializam no ensino. Eu estive acompanhando a Conferência Nacional de Alternativas para uma Nova Educação, e lá estava representante do MEC. O MEC até criou um site: criatividade.mec.gov.br, para apresentar novas ideias para o ensino. Agora, o governo vai e faz o contrário oposto! Isso não é algo “distante” como um corte de dinheiro: é algo que vai alterar claramente o funcionamento das escolas no país todo. Vai mudar no IF Sudeste MG Juiz de Fora também!Eu também disse que poderíamos considerar o movimento dos secundaristas em São Paulo, que barrou a reforma do ensino médio do Alckmin. Eu acho que dá pra barrar sim, mas mesmo que não barráse-mos por completo, no mínimo, conseguiríamos deixar claro nosso recado: não tá legal isso, não concordamos. Por isso, a ocupação parece vantajosa. Desde que a ideia seja defender nossos próprios interesses mesmo, e não voto de político;
  • Muita gente bateu panela e tirou uma presidência da república que eles mesmos tinham eleito. A ocupação pode sim ser útil.
  • Tem que protestar em Brasília, não aqui. Aqui os prejudicados serão nós mesmos.
  • Eu: muito tenho observado falarem sobre ir protestar em Brasília. Eu gostaria de saber: quem é que vai pagar minha passagem? Nós estamos aqui, e Brasília é longe. Isso é meio caro… Daria o quê, uns R$400 para ir e voltar, por cada um, e no momento sou estudante, não tenho dinheiro não. Parece inviável levar este tanto de gentue aqui em caravana. Ainda têm-se que considerar que o pessoal do integrado é menor de idade, dependendo de autorização dos pais, acompanhamento de responsáveis legais… Eu acho o seguinte: a gente está aqui, está puto aqui, vai ser impactado aqui, e é aqui que a gente manda nosso recado.

O rapaz contra a ocupação falou mais vezes: disse que não necessariamente deveríamos confiar na mulher que falou (a Lorene), e reclamou que o texto de divulgação da assembleia era diferente, que não estava combinado direito, que ele não sabia que tinha uma página no Facebook, etc. Me parece reclamação de mau-perdedor, pois o microfone estava aberto para quem quisesse falar e refutar o que foi exposto, tendo ele mesmo falado várias vezes.

Também, saiu ao menos uma notícia sobre a ocupação no maior jornal da cidade (Tribuna de Minas), e eu que não tenho Facebook pude saber perfeitamente sobre a assembleia ao olhar os cartazes nas paredes da escola, confirmar na sala do GETU (Grêmio Técnico Universitário), e pedir para alguém que tem Facebook olhar algumas coisas para mim na página. Não me pareceram procedentes estas críticas dele…

Votação

O primeiro rapaz a falar voltou à frente da sala para reclamar que tinha gente que não pôde ir na assembleia, pois tinham prova prática, etc, e que ele tinha 289 assinaturas de pessoas contra a ocupação, que ele recolheu nas salas. Interessante ele só lembrar disto depois de 2 horas de discussão, na hora em que as pessoas iriam finalmente votar…

A isso, um professor presente respondeu que houve assembleia na segunda, os professores foram convocados, foi decidido que os alunos seriam liberados, o ofício foi passado aos professores. Agora, estávamos ali presentes para decidir a ocupação. Não existia outro fórum legítimo para decidir isto.

Uma garota na mesa concluiu que poderiam mesmo ter professores que não tinham liberado, então decidiu-se votar na assembleia se as pessoas de fora poderiam ser chamadas ou não para votarem ali na hora. A maioria votou contra, e esse rapaz contrário à ocupação, mais um pessoal junto dele, saiu, depois de ter sido dito várias vezes “mas a assembleia já decidiu. PERDEU”. Fim?

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Panorâmica da fila de votação após entrarem os convocados.

Nada! Ele volta com um montão de gente que estava nas salas, não participou da assembleia, não ouviu o que estava sendo discutido, não sabia os motivos, não sabe qual era a proposta, não sabe quanto tempo de ocupação seria, etc. Ou seja, foi recrutada uma massa de incautos para votar massivamente na opção do solicitante. Eles só tinham a versão de quem os recrutou nas salas. Algo como “tem um grupo fazendo sacaagem, reunião secreta, vão votar pelas nossas costas pra gente ficar sem aula”, eu suponho. E só me resta supor, já que, não tendo sido dito dentro da assembleia, eu não tenho como averiguar.

O resultado é que chegaram pessoas com raiva por irem ficar sem aula, e o rapaz com raiva falando que iam votar sim, que “a porra da mulher (a palestrante) que não tinha nada a ver avacalhou a assembleia”, etc. Uma garota estava ameaçando chamar polícia pra bater na gente, que a gente ia ver só. Uma atitude muito desprezível desse rapaz ter feito esta fraude. As pessoas que votam sem participar de discussão não sabem no que votam. Quem vota ouvindo só um lado, não sabe no que vota. Essa atitude, na Wikipédia lusófona, por exemplo, é execrável e resulta em bloqueio ou banimento.

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Apuração dos votos ocorrendo.

Os seguranças chegaram, as pessoas votaram e foram embora, e as coisas enfim se acalmaram. Então, às 10:30PM (4 horas de reunião), saiu o resultado: 85 contra, 71 a favor de ocupar. Eu fiquei na sala durante a apuração e tudo correu tranquilamente, com pessoas contra e a favor na mesa checando os votos. Daí estes totais serão somados aos do integrado, que já votou e aparentemente foi massivamente a favor, e os totais da graduação (faculdade), ainda não votados. Considerados todos os grupos de estudantes, haverá a resposta final.

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