Medidas de Segurança contra o Terrorismo: custos vs benefícios

Autor: Sander Venema. Tradução: Anders Bateva.

Alguns dias atrás [em 2013, quando o artigo foi escrito originalmente], o Ministro do Interior Holandês, Ronald Plasterk disse em um debate no parlamento que ele está aparentemente OK com a comunidade de inteligência dos EUA, a NSA, entre outros, espionar a Holanda. Seu raciocínio é falho desde o começo, e foi algo assim (parafraseado): ‘Eu não quero dizer que os cidadãos holandeses nunca podem ser espionados. Pois este cidadão holandês também pode ser um terrorista de sangue frio. E é bom que esse terrorista possa ser encontrado.’ Plasterk depois negou ter dito algo do tipo, mas ele disse isso durante o debate… Mais evidência pode ser encontrada aqui.

Seria preço nenhum, alto demais para segurança?

Benjamin Franklin uma vez disse algo como “aqueles que abrem mão de liberdade essencial para obter uma pequena segurança temporária, não merecem nem liberdade nem segurança”. Esta citação tem sido usada bastante, mas é aplicável aqui. A questão que precisamos responder é a seguinte: quando as medidas de segurança param de beneficiar o bem maior, e violam nossa privacidade e liberdade, que são valores que costumavam definir nossas próprias sociedades? Quando o preço que temos a pagar por aquela pequena extra segurança torna-se grande demais?

Combater o terrorismo certamente parece ser um objetivo bem nobre, e, ao passo que concordo que há certas pessoas por aí que visam mudar nossas estruturas societárias através de métodos violentos (apesar de que deve-se notar que o terrorista para um, é o lutador da liberdade, para outro; a definição do termo está meio que no olho do definidor), chega um ponto onde o preço que temos a pagar, por um pequeno incremento na segurança, torna-se grande demais, comparado aos potenciais benefícios.

Terrorismo é realmente raro

  • Chances de ser vítima de terrorismo em um vôo: 1 em 10.408.947;
  • Chances de ser acertado por um raio: 1 em 500.000.

Gizmodo.

Uma coisa que nós temos de entender é que: atos de terrorismo na escala do ataque às Torres Gêmeas, ou os bombardeamentos no transporte público de Londres, por mais detestáveis que sejam, são ainda bem raros, de fato. Extremamente raros, de fato. Até mesmo o Presidente Obama o disse, apesar de que ele fez uma escolha interessante de palavras. A chance de que você seja envolvido em um acidente de trânsito amanhã é de várias ordens de magnitude maior do quê a chance que o próximo avião em que estiveres acabe dentro de um prédio, ao invés da pista de pouso. Isto também é válido para outros atos de terrorismo, não apenas aqueles que envolvam aeronaves. E mesmo a TSA concorda agora que os terroristas não estão conspirando contra a aviação. Então, porquê nós insistimos em concordar com todas as medidas de segurança draconianas, se é claro que não ajudam nem um pouquinho?

Você vê o mesmo ocorrendo com câmeras de vigilância: governos e corporações põem essas coisas em todo lugar, mas não há o menor sinal de evidência de que estas câmeras realmente ajudem a previnir crimes.

Mas, ainda assim, a TSA e suas contra-partes europeias continuam a dizer às pessoas para deixar suas garrafas d’água, comida de bebê, e espátula de margarina no local de embarque. Bruce Schneier pensou bastante sobre este problema, e disse que nós atualmente tentamos nos proteger contra planos terroristas específicos, parecidos com os dos filmes, ao invés de fazermos uma análise de riscos completa e proteger-nos com medidas mais genéricas que podem de fato funcionar contra múltiplos tipos de planos. Terroristas derrubam aeronaves, então nós aumentamos a segurança nos aeroportos; terroristas usam estiletes, então banimos os estiletes; alguém embarca com uma bomba escondida nos sapatos, então estamos dizendo às pessoas para tirarem os sapatos. Estas são todas ações bem específicas tomadas contra estes tipos de planos cinematográficos. As medidas de segurança tomadas aqui são demasiadamente específicas para funcionarem contra qualquer coisa além de um plano de ataque de cinema. Tão logo os terroristas modifiquem seus planos apenas um pouquinho, a estratégia inteira para combatê-los torna-se inefetiva.

Os humanos são, infelizmente, terrivelmente ruins em avaliar riscos, e se você lhes dá um plano bem específico, como de cinemas, eles vão avaliar o risco disto muito mais alto do quê ele é na realidade, devido à especificidade do plano. Nós, humanos, fomos condicionados evolucionariamente para considerar ameaças específicas como sendo um risco maior do quê uma ameaça geral.

Se você é um primata vivendo na floresta, e você é atacado por um leão, faz mais sentido que você desenvolva um medo de leões por toda a vida, ou ao menos tenha medo de leões mais do quê algum outro animal pelo qual você não tenha sido atacado pessoalmente.

— Bruce Schneier, na Wired (2007).

Nós estamos condicionados a pensar: se aconteceu uma vez, então é provável que vá acontecer novamente. E você vê políticos usando este conhecimento para vantagem própria. É revelador considerar que a maioria das medidas que nós atualmente tomamos contra o terrorismo nunca teriam sido ao menos consideradas, não tivesse acontecido o ataque às Torres Gêmeas.

Seguindo em frente…

A respeito dos comentários feitos pelo Mr. Plasterk: eu penso que muitos políticos ainda pensam que os Estados Unidos são um dos “mocinhos”, porém há mais e mais evidência surgindo de que, politicamente falando, ele não é nosso aliado, e certamente não é nosso amigo. Eles servem apenas a seus interesses próprios, tal como qualquer outra nação no planeta, e é importante nunca esquecermo-nos disto.

Eu até mesmo ouvi alguns políticos dizerem que nós deveríamos demandar que cidadãos holandeses sejam tratados da mesma forma que os estadunidenses sob a lei dos EUA. É risível pensar que estadunidenses do outro lado do Atlântico dirão: “Oh, não! Nós irritamos os holandeses! Rápido, mude nossas leis para tratá-los igual a como tratamos os estadunidenses, antes que eles comecem a re-colonizar Nova York!” No máximo, o que esses políticos terão é uma boa carta da embaixada dos EUA na qual eles solenemente prometem que isso nunca acontecerá novamente, ao mesmo tempo em que suas leis e práticas não mudam nos EUA. E a NSA, com felicidade, continua a esmagar nos direitos de seus aliados da OTAN. E nossos políticos estão aparentemente bem felizes de aceitar isto.

Nós temos de re-considerar nossa posição e alianças, após as numerosas revelações de documentos secretos pelo delator Edward Snowden. De que adianta um amigo que espiona-lhe pelas costas? A Presidente Rousseff do Brasil tomou ação decisiva em cortar laços com os Estados Unidos, e até mesmo construindo novas conexões de cabos de fibra ótica que passam fora do território dos Estados Unidos. Onde está a indignação na sociedade holandesa? Aqui, o AMS-IX (o Amsterdam Internet Exchange, 2º maior Internet exchange no mundo), expande-se para os EUA, fazendo-o sujeito ao Ato PATRIOTA. Estariam estas pessoas vivendo sob uma pedra nos últimos meses? Ou há outros interesses comerciais, em jogo aqui? Nós precisamos começar a demandar respostas, ao mesmo tempo em que fortalecemos nossas próprias proteções de privacidade. Privacidade é um direito humano, nada mais, nada menos. Nós precisamos começar a usá-lo, ou corremos o risco de perdê-lo.

Licença Creative Commons Este post de Anders Bateva está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em Sander Venema.

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