Eu sou assexual!

Assexualidade é a falta de atração sexual a qualquer pessoa, ou pequeno ou inexistente interesse nas atividades sexuais humanas.

Wikipédia – artigo Assexualidade.

Recentemente, tive uma bad trip sinistra. Durante ela, tive surtos de ansiedade, e fantasmas do meu passado voltaram para me assombrar. Eram problemas que eu tinha deixado sem solução, em segundo plano, como que me recusando a encará-los. Me senti sufocado, aflito, sem ter mais onde me esconder. Quando consegui me acalmar e refletir, decidi arregaçar as mangas e dar solução para as questões em aberto. Me senti leve, como se, após quase morrer, tivesse renascido. Uma questão resolvida foi minha assexualidade.

Veja que eu não digo que minha assexualidade é um problema. É, ao invés disto, uma característica minha que eu já tinha observado na prática, mas não queria classificar, para evitar mexer com o problema. E o problema eram as mágoas que eu tinha por sempre frustrar as pessoas que gostavam sexualmente de mim.

As garotas sempre vêm a mim querendo SEXO. É a primeira coisa, e se negado, em geral elas vão embora imediatamente. Algumas lidam bem, outras fazem uma cara azeda como se eu mentisse ao dizer que não quero (‘ai, você me acha feia’, ‘ai você me acha gorda’, ‘você é gay?’), outras ficam ofendidas logo (imagino que pensam ‘como ousa me recusar?’)… Algumas chegaram a dizer que eu sou INÚTIL, e que sou uma PERDA DE TEMPO… Existem também as que não vão embora imediatamente, e ficam insistindo tanto (assédio) que eu passo a ter medo delas me encontrarem novamente algum dia. Dessa última categoria, duas foram as piores experiências: uma queria casar comigo (e sempre mentiu sobre ser minha amiga, pois o interesse real era meu corpo, e ela nem me conhecia apesar de conversar comigo), a outra queria me matar (por eu não ter transado num evento importante da vida dela, e aí ela mobilizou um grupo de feministas contra mim).

O melhor que eu posso fazer pelas garotas, é frustrá-las pouco. Eu não posso dar a elas o que elas querem (amor, sexo). Recusar logo de cara a solicitação é o que frustra-as menos. Ir deixando seria pior, pois o interesse delas só aumenta, e o meu… diminiu? Acho que sentir-se constrangido, deslocado, numa armadilha, ou com medo é claramente uma diminuição de interesse a partir do estado de nulidade. Eu não me sinto bem num encontro romântico, beijando, ou sendo agarrado, ou segurando as mãos, ou lidando com insistência, duplos sentidos, e chantagem emocional.

Essa parte é a que todos vêem: eu sou o vilão, o homem de ferro (do rock do Black Sabbath) querendo destruir tudo que há de bom, eu sou o insensível, o coração-de-pedra/gelo… Isso me faz chorar, mas eu nunca contei em geral, pois é um problema meu, é uma fraqueza, uma vulnerabilidade que aquelas que ficam com raiva vão usar como alvo para me magoarem ainda mais, é uma coisa vergonhosa que ninguém entende, e no máximo achariam engraçado, ou achariam que é trollagem. As pessoas simplesmente não entendem o meu lado! Eu já tinha explicado ele antes, mas agora que eu sei o que sou, quero abrir pra todos e todas verem e entenderem. Eu tenho emoções!

O meu lado é que, a cada garota que eu frustro, eu me frusto muito mais. Eu não deixo transparecer, eu sou brincalhão e vou em espírito esportivo lidar com a revolta dos homens que queriam ficar com ‘a fulana’ e não conseguem (pois ela não quer eles), e que ficam com inveja de eu recusá-la (quando ela me quer). Como eu disse, ‘fulana’ pode nem se importar com o fora… Mas eu me importo. Enquanto para ela, eu sou apenas 1 cara ‘abestado’, para mim, são dezenas de pessoas que eu frustrei. Frustrei TODAS ELAS. Algumas tinham sonhos, como a que queria (ainda quer?) casar (o que para mim, seria um PESADELO), queriam namorar comigo, faziam brincadeirinhas, tinham expectativas, me davam afeto, atenção, carinho… Pareciam pessoas legais, resplandeciam felicidade… Mas eu não tinha como corresponder, pois queriam somente o que eu não podia dar. Se me pedissem alguma outra coisa… Mas não.

Não é que meu corpo seja doente. Meu nível de testosterona é normal, e meus órgãos genitais funcionam e têm aspecto (tá, e tamanho…) adequados. Também não é doença mental, eu já me consultei a respeito… Eu simplesmente não vejo porquê me envolver sexualmente com outra pessoa. Portanto, sou assexual. Eu tenho libido, eu me masturbo (como forma de controle, tal qual se controla fome e sono também), mas não vejo porquê fazer sexo. Porquê envolver outra pessoa, se eu não sinto necessidade de outra pessoa?

Vejam bem, eu sou um tipo específico de assexual, que também não sente amor. Seriam os arromânticos. Qual o sentido de sexo sem amor? Sexo sem amor é simplesmente usar o corpo de outra pessoa como objeto de masturbação. Poderia ser uma boneca. Poderia ser a mão. Poderia ser uma árvore. Daria no mesmo. Sem sentimento, o sexo não é sexo. Falta a tal da “química”, de que tanto se fala. Eu posso até entender os assexuais românticos, mas os sexuais arromânticos não. Amor sem sexo tem sentido, sexo sem amor, eu não entendo.

Então… Eu não sinto falta de sexo, pois eu nunca tive a necessidade, e não tenho como sentir falta de uma necessidade que eu nunca tive. Porquê um gay sentiria falta de transar com mulheres, sendo que nunca quis transar com mulheres, por exemplo? Mas me sinto muito depreciado ao ser visto somente como um pênis que anda por aí. Quanto vale um ser humano? O número de fodas dadas? Eu acho lamentável que as coisas sejam encaradas desta forma. Seres humanos são (ou deveriam ser) complexos. Limitá-los a uma característica apenas, qualquer que seja, é uma simplificação HORRENDA. Não é óbvio que a pessoa não é somente um time de futebol, uma religião, um partido político, um gênero musical, uma profissão, um hobby? Porquê então limitar as pessoas somente ao sexo/não-sexo? É uma característica entre várias outras. Eu gosto de conversar! Eu gosto de escrever! Eu poderia listar em um instante pelo menos 10 categorias ideológicas e de afinidades onde eu encontro familiaridade.

O que me frustra é esse tratamento que recebo. Eu não mereço ser tão diminuído. Eu GOSTO de pessoas. Algumas, GOSTO MUITO. Quero o melhor para elas. Tenho compaixão, quero ajudar, quero ser útil, oferecer minha presença… Não sou um insensível! Só não transo. Não exijam de mim a única coisa que não posso oferecer! Eu tenho outras coisas a oferecer.

Eu posso oferecer minha amizade; eu quero amizades. Mas amizade não é um eufemismo para “candidato a ficante”, “próximo na fila do abate”, “namoro em construção”… Existem pessoas que consideram amizade um tipo de amor: o tal ‘amor platônico’ (já diz a música da Rita Lee: “amor sem sexo é amizade/sexo sem amor, é vontade”. Eu encontro dificuldade em usar esse termo (“amor”), já que o termo “amor” virou (há alguns séculos, me parece) basicamente um eufemismo de sexo (“fazer amor”), e por isso as pessoas não interpretariam corretamente (eu mesmo, não consigo). Eu prefiro me abster de usar o termo “amor”, e usar “gostar”. “Gostar”, por sua vez, parece estar virando um eufemismo de “amar”, mas olha, essa eufemização toda me enche o saco! Existem porém, assexuais que amam e namoram, mas obviamente sem sexo.

Poxa… Mas você não poderia ceder, se tivesse alguém que você GOSTA MUITO e te pedisse e isso fosse fazê-la mais feliz? Você não vai morrer se transar uma vezinha só.

— pergunta recorrente.

NUNCA é uma vezinha só. Eu não sei se eu conseguiria suportar fazer algo que não gosto, seria ESQUISITO para mim. Tal qual foi ESQUISITO beijar na boca, há muitos anos atrás. E o problema é que, pra pessoa SEXUAL, isso não é ESQUISITO, mas DELICIOSO. Então o interesse da outra pessoa cresce, e o meu, diminui (conforme eu for me sentindo “amarrado”, constrangido, deslocado). Isso gera problemas… Frustração para ambos. Não posso aceitar ceder… Pioraria tudo. Eu me aceitaria oprimir para não magoar outra pessoa. Isso só joga o problema pra frente, vira uma bola de neve. Problemas nas interações entre as pessoas devem ser expostos tão logo surjam, antes que escalem.

Eu queria ter mais amigos e amigas que me entendam. Mas o mundo é completamente modelado de outra forma. É insulto recusar sexo!!! Mas eu não tenho culpa. Eu não faço por mal. Recusar logo é o melhor que eu posso fazer. Eu não quero me sentir quebrado, destruído, demolido por dentro. Não quero me sentir um monstro, um ser metálico, um alienígena. Não quero reprovação, pressão social para agir em conformidade com a vontade de outras pessoas. Eu queria ser tratado com mais respeito, e compreensão. Eu não estou fazendo nenhum mal! As expectativas das outras pessoas é que ignoram minha realidade. Eu nunca prometi transar com ninguém. Já são quase 10 anos sem beijar ninguém na boca. Eu não pretendo deixar de ser virgem. De onde tiraram que sou obrigado a aceitar? Onde está o “meu corpo, minhas regras”, hein? Eu não quero fazer sexo, e não há pressão social suficiente que me faça “mudar de ideia”!


A Semana da Visibilidade Assexual 2017 ocorrerá entre os dias 22 e 28 de outubro. Faltam 120 dias!

Licença Creative Commons O texto deste post de Anders Bateva está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição 4.0 Internacional.

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