Assexualidade: como funcionam a atração e a excitação?

Este post consiste de um trecho do artigo a seguir:

O trecho passou por edições de formatação visual para que fosse mais adequado ao formato de um blog.


Se, por um lado, a noção de “orientação sexual” reproduzida pelos assexuais indica continuidade com o discurso dos especialistas, por outro, a divisão binária entre “assexuais” e “sexuais” marcaria uma ruptura com as concepções convencionais e especializadas a respeito do sexo. A relação entre a emergência da assexualidade e o saber especializado está indicada por estas e outras continuidades e rupturas. Descrevo a seguir algumas das rupturas.

Ao longo do acompanhamento dos sites e das demais produções dos assexuais, tenho percebido uma operação discursiva que toma noções usualmente empregadas no discurso especializado sobre o sexo e as decompõem em novas categorias. O procedimento pressupõe reflexividade e considerável acuidade na elaboração escrita. Um importante exemplo neste sentido se verifica na noção de “atração”.

Atração

Os assexuais discriminam a atração em modalidades variadas, fazendo ver uma partição onde comumente havia um aglomerado. Ao tratar da inclinação por um parceiro ou uma parceira, excluem desta qualquer sentido sexual:

Atração: muitos assexuais sentem atração, mas nós não sentimos a necessidade de extravasar essa atração sexualmente. Ao invés disso, nós sentimos um desejo de conhecer as pessoas, de estarmos perto delas da forma que melhor funcione para nós. Pessoas assexuais que sentem atração frequentemente se sentem atraídas por um gênero particular e se identificam como lésbica, gay, bi ou hétero.

Asexuality.org.

De forma tácita, tanto no conhecimento especializado (incluindo o das ciências sociais) como no senso mais comum, a atração pressupõe ser de tipo sexual. Inclusive, a orientação sexual é identificada segundo o reconhecimento dessa atração, seja ela por homens, mulheres ou por ambos. Na experiência dos assexuais, a atração existe, ela somente não é de tipo sexual, podendo ser estética, afetiva ou de outra ordem. A atração sexual seria uma modalidade particular, em vez de ser tomada como uma noção que engloba e determina o interesse.

Segundo suas formulações, nem a atração nem a orientação dependeriam de um sentido sexual. Para os assexuais, o afeto por um parceiro não está vinculado ao sexo, ou seja, esse afeto está grosso modo destituído do desejo sexual ou não se expressa sexualmente. Assim, a assexualidade dá cabimento a híbridos interessantes, como “homoafetivo”, “heteroafetivo”, “biafetivo” etc. Nessas combinações, os assexuais operam uma cisão na definição usual de orientação sexual: para seu entendimento, excluem seu aspecto sexual, mas preservam o componente de gênero. A inclinação de um assexual por alguém não seria sexual, mas pode ser, digo eu, “generificada”. Assim, não seria nem o desejo sexual, nem qualquer outro elemento de natureza sexual a conectá-los com seus parceiros, abrindo novas nuances e porosidades entre o que se convenciona serem as relações de amizade e as de casal. Os diferentes tipos de “atração” apresentados deslocam e destronam explicitamente o desejo sexual como componente ideal da afinidade entre um casal. Como se pode inferir a partir deste caso, a atração sexual não seria necessariamente a modalidade preponderante ou englobadora das demais na base da constituição de uma relação a dois ou da conjugalidade. Na lógica apresentada pelos assexuais, a qualificação de “sexual”, geralmente acoplada à noção de “atração”, torna-se contingente.

Excitação

Além da “atração”, o conceito de excitação, tão caro às teorias sobre a “resposta sexual humana” propalada pelos especialistas do sexo, também é revisto nas proposições dos assexuais. A apreensão a respeito é bem original, pois dissocia a excitação do desejo em relação a um dado parceiro:

Excitação: para alguns assexuais a excitação é um acontecimento bastante regular, embora ela não seja associada com o desejo de encontrar um parceiro sexual ou parceiros. Alguns irão ocasionalmente se masturbar, mas não sentem desejo de uma sexualidade a dois. Outras pessoas assexuais sentem pouca ou nenhuma excitação. Devido a que não nos importamos com o sexo, as pessoas assexuais não veem a falta de excitação sexual como um problema que deva ser corrigido e focalizam sua energia desfrutando de outros tipos de excitação e prazer.

Asexuality.org.

Na emergência da assexualidade, outra ruptura pode ser vista na crítica (tácita) à ideia corrente para os especialistas de que a prática sexual é uma expressão de uma vida saudável. A argumentação dos assexuais localiza a assexualidade fora do conjunto de disfunções sexuais e na medida em que a falta de desejo não constitui um problema para os sujeitos, não haveria razão para buscar nem uma causa nem uma cura. É importante anotar ainda que seus discursos não pretendem desacreditar a existência de problemas relacionados ao desinteresse pelo sexo que exijam a consulta a um médico ou terapeuta, existindo uma menção no site da AVEN a respeito. O que fazem, mais exatamente, é enfatizar a diferença desses casos com a assexualidade.

As descrições referentes às formulações dos assexuais apresentadas acima destacam seu aspecto mais característico, a meu ver, o trabalho de dessexualização da experiência humana, que parece não poupar nenhuma de suas dimensões. Neste sentido, a assexualidade vem a ser uma nova classe sexual às avessas.


A Semana da Visibilidade Assexual 2017 ocorrerá entre os dias 22 e 28 de outubro. Faltam 90 dias!


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