Facebook: não use!

Tradução parcial do texto “Facebook: la vida de los otros”, publicado originalmente no site Panfleto Negro em 01/07/2009. Autor: Sr. Cobranza. Tradução por Anders Bateva.


Existe vida fora do Facebook? Para muitos, a pergunta carece de sentido, não tem pertinência: a vida é Facebook e nada mais. Dia após dia, trocam fotos, alteram o status de relacionamento, e operam de forma quase automática, de forma quase burocrática na supervisão e controle da insuportável leveza do ser na era das redes sociais.

Assim, naturalizamos e assumimos, sem maior coerção à força, a condenável função de qualquer funcionário da Stasi na Alemanha Socialista (relacionado: filme “A Vida dos Outros”). Ou seja, pouco a pouco, vamos desumanizando-nos ao convertirmo-nos em potenciais funcionários da nova Stasi mundial: Facebook, aonde permitimos e convalidamos o questionável feito da vigilância online. Dedurar no trabalho ao estilo lista Tascón, uma fofoca inquisidora, uma faca de dois gumes, um vulgar paredão – disparem, apontem, fogo!

Para Bauman, se trata de um dos graves perigos da pós-modernidade: acabar aceitando, com resignação, o menoscabo de nossos direitos inalienáveis, conquistados ao longo dos séculos, em nome das promessas demagógicas da economia de mercado, da publicidade, o império do efêmero, das relações públicas, do politicamente correto, e do pensamento débil. Armadilhas e álibis fabricados pelo Poder para dar carta branca a suas tradicionais operações disfarçadas de vigiar e punir.

A única diferença em relação ao passado situa-se na mudança de atitude do indivíduo-massa e do coletivo perante o tema da coerção de suas liberdades. Ontem, a maioria silenciosa sabia pronunciar-se e organizar-se na hora em que pressentia o menoscabo de seus privilégios adquiridos de intimidade e privacidade. Sem dúvida, eram outros tempos. Seguramente, os fantasmas da Segunda Guerra Mundial, da Guerra Fria, do Stalinismo, da Caça às Bruxas e afins, seguiam muito frescos na memória do indivíduo comum.

Hoje, pelo contrário, o sistema corporativo conseguiu introduzir sua agenda, seu Cavalo de Troia até o fundo de nossa alcova e de nosso lar-doce-lar, sob o manto e a tela da boa-vontade, perante a enorme popularidade da rede e perante a complacência dos, assim chamados na China, aplaudidores de iniciativas empresariais, seduzidos e fascinados como crianças pela mitologia eletrônica, enquanto cultivam, da boca para fora, um curioso ceticismo paradóxico radical frente às ideologias “duras” da modernidade. Portanto, são agnósticos e ateus até certo limite, pois no fim das contas, confiam nas virtudes emancipadoras do consumismo, do hedonismo, e do egocentrismo, através das inumeráveis plataformas implementadas pela sociedade do espetáculo.

De qualquer forma, há suficientes e fundamentadas razões para desconfiar também de semelhante proposta dogmática com ares de transcendência, messianismo, e redenção. De uma vez por todas, grave na sua cabeça: o Facebook não é a tábua de salvação para sua “solidão compartilhada” desde o anonimato, e para a destruição bélica de suas relações interpessoais, justamente quando os governos do mundo fomentam o isolamento, a não-solidariedade, a intolerância, e a desintegração darwinista do tecido urbano por meio de guerras, fomes, desabastecimentos programados, epidemias falsas, ameaças permanentes e atrozes manejos na distribuição de recursos.

Repito: o Facebook não vai melhorar absolutamente nada, e em lugar disto, vai reforçar o mal estado das coisas, tal qual um simulacro, tal qual uma tela de ocultamento e distração da realidade. Me explicarei. A seguir, te convido a descobrir e desconstruir o lado escuro de sua suposta “rede amiga”/”rede de amigos”… amiga da onça! Amiga traiçoeira, hipócrita, e zero transparente.

Mark Zuckerberg

A primeira cabeça da fera é Mark Zuckerberg, garoto prodígio da computação ingressado em Harvard e punido ali mesmo por desenvolver um programa violador das normas da academia. De fato, segundo a versão extra-oficial, a Universidade o condenou por infringir a segurança informática e as políticas de privacidade e propriedade intelectual amparadas pela famosa casa de estudos. Na atualidade, o Zuckerberg faz o mesmo, em escala global, e com o consentimento da comunidade internacional; um golpe de estado de quarta geração, cometido sem disparar um só tiro, e respaldado pelas próprias vítimas da tirania da comunicação.

Como diria Baudrillard, é uma nova forma de servidão voluntária surgida dos escombros da queda do muro de Berlim, à luz da euforia tecnocrática e tecnofília dos anos 90, quando se impõe o projeto da Internet como ponta de lança da ofensiva militar no seio da globalização.

Em termos de Gubern, nos aproximamos da universalização distópica da “claustrofilia” aludida por Foucault em um espaço descentralizado, desprotegido, e facilmente vulnerável pelas estratégias de persuasão da propaganda desenhada pela ditadura do Big Brother.

Atenção para as seguintes palavras de Lee Siegel, a respeito do ser humano na era da multidão digital:

Deus me livre de comparar a Internet a uma armadilha mortal iminente. Porém, a Internet tem seu lado destrutivo, como o automóvel. Ambas as tecnologias entraram no mundo com ares de triunfalismo, ocultando seus perigos frente a qualquer visão crítica. Tal qual o carro, a Internet foi concebida como um milagre social e de transformação pessoal, quando, no fundo, é um prodígio da comodidade. No caso concreto da Internet, sua maravilhosa utilidade tem causado uma imensa transformação social e pessoal. Como ocorreu com o automóvel, as críticas sobre seus defeitos, riscos e perigos têm sido silenciadas, ignoradas e estigmatizadas como expressão dos 2 grandes tabus estadunidenses: 1) a negatividade; e 2) o medo da mudança. Igual o que ocorreu com o automóvel, a retórica da liberdade, da democracia, da escolha, ou do acesso, têm encobrido o interesse avaro e cego que se oculta por detrás da maior parte daquilo no que se converteu a Internet na atualidade.

Um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

*