Voto vs. Ação Direta

Publicado originalmente no CrimeThinc. em 28/06/2017. O texto abaixo corresponde a apenas uma das seções do texto original, não é a íntegra.


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As pessoas se preocupam com as eleições em níveis nada saudáveis. Isso não quer dizer que todo mundo vota, ou acha que votar muda algo e vale a pena; pelo contrário, um número cada vez maior de pessoas faz questão de votar branco ou nulo. Mas quando você conversa sobre política, de opinar sobre a atual situação do país, o voto é a única estratégia em que as pessoas conseguem pensar — votar e influenciar o voto das outras pessoas.

Será que é por isso que tantas pessoas se sentem desempoderadas? Digitar um par de números anonimamente uma vez por ano, ou a cada quatro anos, basta para nos sentirmos incluídos no processo político ou para ter influência sobre ele? Mas o que há além do voto?

Na verdade, votar para que outras pessoas representem os seus interesses é a forma menos eficiente que há para exercer poder político. A alternativa, de forma geral, é agir diretamente para que você represente os seus próprios interesses.

Isso é conhecido em alguns círculos como “ação direta”. Ação direta é às vezes confundida com outra forma de fazer campanha, usar táticas de ativismo político para influenciar políticos eleitos; mas na verdade se refere a qualquer ação ou estratégia que corta o intermediário e soluciona os problemas diretamente, sem apelar a governantes eleitos, ao interesse corporativo ou outros poderes.

Exemplos concretos de ação direta estão por toda parte. Quando as pessoas começam a sua própria organização para compartilhar comida com quem passa fome, ao invés de apenas votarem para um candidato que promete usar o dinheiro dos impostos e a burocracia para resolver o “problema dos moradores de rua”, isso é ação direta. Quando um homem confecciona e distribui panfletos que tratam de algo que o preocupa, ao invés de confiar que os jornais tratem do assunto ou publiquem o seu e-mail, isso é ação direta. Quando uma mulher forma um clube do livro com suas amigas ao invés de pagar por aulas em uma escola, ou faz o que é necessário para fechar uma superloja corporativa no seu bairro ao invés de delegar autoridade para os planejadores da cidade, isso também é ação direta. Ação direta é o fundamento de uma comunidade forte. Sem ela, quase nada seria feito.

De várias formas, a ação direta é um meio mais eficiente que o voto para as pessoas influenciarem a sociedade. Por uma razão, votar é uma loteria: se um candidato não se elege, então toda a energia que a sua base usou para apoiá-lo é desperdiçada, bem como o poder que elas esperavam que ele exercitasse vai para outra pessoa. Com ação direta, você pode ter certeza que o seu trabalho vai ter algum tipo de resultado; e os recursos que você adquirir no processo não podem ser tirados de você, quer seja experiência, contatos e reconhecimento na sua comunidade ou infraestrutura organizacional.

Votar consolida o poder de toda a sociedade nas mãos de um punhado de políticos. Através da pura força do hábito, para não falar de outras formas de imposição, todo mundo é mantido numa posição de dependência. Através da ação direta, você se familiariza com os seus próprios recursos, capacidades e iniciativa, descobrindo o que eles são e o que você pode alcançar com eles.

Votar força todas as pessoas em um movimento a tentarem concordar em uma plataforma; as coalizões brigam sobre aquilo que terão que abrir mão, cada facção insiste que sabe a melhor forma e que as outras estão estragando tudo ao não concordarem com o seu programa. Muita energia é despediçada nessas disputas e recriminações. Na ação direta, por outro lado, não é necessário nenhum grande consenso: diferentes grupos podem realizar diferentes abordagens de acordo com o que acreditam e com o que se sentem confortáveis fazendo, e ainda podem interagir para formar um todo que seja mutualmente benéfico. As pessoas envolvidas em diferentes ações diretas não precisam bater boca, a menos que elas realmente estejam atrás de objetivos conflitantes (ou que anos votando as tenham ensinado a discutir com qualquer pessoa que não pense exatamente como elas). Os conflitos sobre eleições geralmente nos distraem dos verdadeiros problemas que estão aí, já que as pessoas se envolvem no drama de um partido contra o outro, um programa contra o outro, um candidato contra o outro. Com a ação direta, por outro lado, os problemas em si são abordados, tratados especificamente, e freqüentemente resolvidos.

Votar só é possível quando chega o momento das eleições. A ação direta pode ser aplicada sempre que acharmos necessário. Votar só é útil para tratar dos assuntos que estiverem presentes nos programas políticos dos candidatos, enquanto a ação direta pode ser aplicada em todos aspectos de nossa vida, em qualquer parte do mundo.

O voto é glorificado como a “liberdade” em ação. Isso não é liberdade — liberdade é antes de tudo poder decidir quais serão as opções, e não ter que escolher entre Pepsi ou Coca-Cola. A ação direta é pra valer. Você planeja, você cria ass opções, o céu é o limite.

Fundamentalmente, não existe motivo para que ambas as estratégias, o voto e a ação direta, não sejam utilizadas juntas. Uma não cancela a outra. O problema é que tantas pessoas pensam no voto como a sua principal forma de exercer o poder político e social que uma quantidade desproporcional do tempo de todo mundo é gasto deliberando e debatendo sobre isso enquanto outras oportunidades de mudança são desperdiçadas. Por vários meses antes de toda eleição, todo mundo discute sobre o voto, em quais candidatos votar ou mesmo se se vota ou não, quando o voto em si leva menos de uma hora. Vote ou não vote, mas não se demore nisso! Lembre-se de todas as outras formas com as quais você pode se fazer ouvir.

Sendo este ano de eleição, nós ouvimos constantemente sobre as opções disponíveis a nós eleitores, e quase nada sobre nossas outras oportunidades de ter um papel decisivo na nossa sociedade. O que precisamos é de uma campanha para chamar a atenção para as possibilidades que métodos mais diretos de ação e envolvimento com a comunidade têm a oferecer. Isso não precisa ser visto como contraditórios com o voto. Podemos passar uma hora votando todo ano, e os outros trezentos e sessenta e quatro dias e vinte e três horas agindo diretamente!

Aqueles que estão completamente desencantados com a democracia representativa, que sonham com um mundo sem presidentes e políticos, podem ficar tranqüilos que se todos nós aprendermos como utilizar deliberadamente o poder que cada um de nós tem, a questão de qual político é eleito será irrelevante. Eles só possuem esse poder porque nós o delegamos a eles! Uma campanha por ação direta coloca o poder de volta ao seu lugar de direito, as mãos do povo de quem ele se origina.


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